Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Novidades 2

Com a conclusão do ciclo dos 21 textos apresentados, que teve postagens diárias, a partir de hoje este blog será atualizado regularmente todas as quintas-feiras às 21 horas. Eventualmente poderemos postar novidades também em outros dias e horários, dependendo da urgência e da quantidade de material para divulgar.

A postagem de hoje, que você pode conferir logo abaixo, aborda o gênero épico, dando início a uma pequena série de posts contendo características de três gêneros dramatúrgicos, resumidas em tópicos extraídos do livro "O Teatro Épico", de Anatol Rosenfeld.

O Épico em tópicos

a) Pronome: Ele(s). Um observador descreve ações de outros.
b) O ato de narrar define a presença de
um narrador.
c) Se há um narrador, pressupõe-se a existência de uma platéia que o escuta/assiste.
d) A narração também inclui os estados de alma dos personagens (o que não exclui que o narrador também se coloque diante do que narra).
e) Há uma atitude distanciada e objetiva diante de personagens e fatos acontecidos.
f) O narrador tem um conhecimento geral da ação (inclusive da ação interior) dos personagens.
g) O mundo no Épico é amplo (vastidão de possibilidades narrativas)
h) Há definição clara entre sujeito e objeto:
- O narrador nunca se metamorfoseia nos personagens, apenas os “representa”
- O narrador mostra e ilustra
i) O passado é trazido ao presente através do narrador.
j) Fatos, pessoas e coisas são mostrados claramente sob o ponto de vista do narrador.
k) “Cada momento tem seus direitos próprios”
[1].
l) O narrador “não corre impaciente para um alvo”
[2] mas debruça-se em ampla medida sobre situações e estados de coisas.O autor épico move-se em torno da ação, que parece estar em repouso.

Na próxima quinta, leia aqui o Lírico em tópicos.

[1] Frase de Rosenfeld.
[2] Schiller, citado por Rosenfeld.
Fonte: ROSENFELD, Anatol. Teatro Épico, Coleção Debates, São Paulo: Perspectiva, 2000, 4.a edição

Novidades 1

Lamentamos informar que não será possível abrir novas vagas para o segundo semestre nos Grupos de Estudos. Além de estarmos enfrentando séria limitação de pessoal para desenvolver e organizar os trabalhos, os grupos estão atualmente com o justo tamanho para se trabalhar dentro do pouco tempo disponível a cada semana. Esperamos encontrar uma solução em breve, de modo que novos integrantes possam se incorporar a estes trabalhos no próximo ano.

Por outro lado, o segundo semestre terá atividades abertas à participação do público, o que já é uma forma de minimizar as dificuldades às quais nos referimos acima. Vale a pena ficar atento ao cronograma de atividades com platéia aberta, que será divulgado aqui, no dia 06 de agosto. Os trabalhos dos Grupos de Estudos estarão em recesso no mês de julho, devendo ser retomados na primeira semana de agosto/2009.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Texto 20 - "Maior do que eu te amo"

O texto criado por Carlos Ferrera (08/04/09) e interpretado por George Cabral finalizou as atividades do dia 15/06/09. Esta cena contém uma declaração de amor feita pelo personagem Vito e, pelo modo como tocou a todos quando foi lido pela primeira vez, tornou-se um dos textos mais queridos pelo Grupo de Estudos de Dramaturgia. Vito é um menino de seis anos, ruivo e com sardas. Ele foi criado por Cleyton Cabral no mesmo trabalho de equipe que também gerou o personagem Morgue, de Ailton Brito. Vito leva uma gaiola a todo lugar que vai. Quando encontra desconhecidos, pergunta-lhes quais são seus sonhos, anotando as respostas num papelzinho e pondo dentro da gaiola. Quando chega em casa lê um por um e depois pendura a gaiola na janela com a portinhola aberta, para que os sonhos voem como pássaros e se realizem. Segundo se sabe, muitas pessoas já realizaram seus sonhos e Vito quer realizar o seu: conhecer seus pais verdadeiros. Ao improvisar a cena, George evitou a caricatura de criança, buscando na sua própria inocência as inflexões que deu ao texto. Com simplicidade e eficácia, complementou sua construção falando diretamente para a platéia, dando suas falas de joelhos, atrás de um birô, simulando a altura de um menino de seis anos.

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VITO
Todos os dias eu agradeço ao rei dos passarinhos por tudo que o senhor fez por mim. Quando eu encontrar minha mãe e o meu pai vou pedir pra eles deixarem o senhor morar conosco. Lembra quando o senhor cuidou do dodói no meu dedo... e daquela vez que eu caí da escada e o senhor veio e me levantou. Nossa! O que seria de mim sem o senhor, não é? Existe uma palavra maior do que eu te amo pra dizer eu te amo pro senhor? Talvez não tenha, né? Então toda vez que eu disser “eu te plou!” vai querer dizer tudo, certo?

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Texto 19 - "Formigas na calcinha"

A exemplo de Cleyton Cabral, George Carvalho (03/06/09) foi outro autor que optou por radicalizar na abordagem da Menina. Também dispensando os suspiros, George levou a personagem para a puberdade num hilário e desconcertante monólogo. Ana Dulce Pacheco encarou o improviso delimitando um amplo espaço vazio no corredor do segundo andar da FUNDAJ. Essa idéia ajudou a simular o gramado citado nas rubricas, sugerindo a intimidade-à-céu-aberto da cena. Para a atriz, o desafio pareceu maior na sincronia do texto com a cadeia de ações e reações da Menina, no contato desta com a grama. De longe, a platéia se deliciava, tão perplexa quanto a personagem.

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(ELA ESTÁ LENDO NO JARDIM DA CASA DELA, DEITADA NA GRAMA. AO LADO, LIVROS E CADERNOS DA ESCOLA)

MENINA
Essa grama já esteve mais bem aparada! Vou reclamar com o jardineiro... (DÁ UNS TAPINHAS NAS PERNAS) Ai! E tem umas formigas me pinicando.. Ai! E parece que entrou uma na minha calcinha... (PÕE A MÃO LÁ DENTRO. ASSUSTADA) Meu Deus, ela me picou... (TIRA A MÃO MELADA DE SANGUE) Tá saindo até sangue! (ELA FAZ CARA DE DESESPERADA. DEPOIS COMEÇA A RIR SEM PARAR) Formiga que morde e sai sangue? Ora, onde já se viu! (RI MAIS AINDA, COM MAIS NATURALIDADE. PÁRA DE REPENTE) Puta que pariu: menstruei! (OLHA PARA OS LADOS. ARRANCA UMA FOLHA DE CADERNO E COLOCA PARA ESTANCAR O SANGUE.) Vou precisar de um absorvente! (SAI, COM A MÃO SEGURANDO O PAPEL DENTRO DA CALCINHA)

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Texto 18 - "Quero ser a Barbie quando crescer"

Cleyton Cabral oferece no texto desta cena uma outra abordagem da Menina dos suspiros, desta vez sem precisar mencionar os suspiros. Com enfoque mordaz e bem humorado – que vem se configurando como uma marca de Cleyton em seus trabalhos – o autor constrói a personagem num tempo-espaço onde se mixam imagens poéticas, ironia e crítica de costumes. O ator Arthur Canavarro fez uma leitura dramatizada desta cena e, a exemplo de outros atores que se depararam com desafios semelhantes, dispensou a facilidade de uma apresentação afetada e de mero apelo ao riso da platéia para focalizar-se na delicadeza da personagem. Sem pretender ser naturalista na abordagem (até porque se tratava de um homem representando uma menina), o resultado que o ator obteve foi fiel ao espírito original do texto, tocando o risível sem exagerar no ridículo. A simplicidade dessa construção, aliada a um andamento sem pressa, ajudou a valorizar falas e interpretação, destacando nuances de intenções e humanizando a personagem.

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MENINA
Será que terei o corpo igual ao da minha Barbie Sonho? Aiii, é o meu sonho. Ela é tão magrinha, tão branquinha, com esses cabelos dourados. Quero ser a Barbie quando crescer. Mas, como? Se sou gordinha, pretinha e tenho o cabelo pixaim? Mas Michael Jackson também era pretinho e quando ele cresceu, ele ficou branquinho como o Ken. O Ken é tão bonito, os olhos azuis, parece um anjo. Só não tem asas. Eu também não tenho asas. Queria voar como passarinho, bem alto, lááááá em cima. Lá no céu e ver tudo pequenininho como uma formiga. Sonhei com uma formiga que voava. Ela tinha os cabelos loiros e os olhos azuis e era bem branquinha, como a Barbie. Ai, eu queria ser a Barbie. E encontrar um príncipe encantado parecido com o Ken. E nós dois voaremos por aí, beeeeeeeem alto. Deitar nas estrelas e olhar pra baixo e chamar todas as formiguinhas-anjos. Eu gosto tanto desse joguinho de computador. Só tenho medo do homem de barba que diz eu te amo para mim. Ele fica querendo me ver na escola. Eu tenho medo dele. Coloquei todas as minha Barbies na porta de casa.